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Um cantor marajoara​

Quando criança, o cantor católico Bruno Diego era embalado pelo som que emanava do violão, tocado pelo pai, e a melodia da voz materna. Essa é uma das primeiras lembranças do artista quando questionado sobre o início da paixão pela música. Aos oito anos entrou para o Coral Santo Ezequiel Moreno, a primeira experiência com o canto formal. Em 2020, aos 33 anos, ele lança seu primeiro single autoral nas plataformas digitais, com clipe gravado na terra natal, Breves (PA), no arquipélago do Marajó, e aguarda a chegada do segundo filho com a esposa Luiza Karema.

Eterno, título do single de estreia, representa o início de um projeto maior, que deve lançar a carreira do artista para o Brasil. “Eterno é a primeira imersão na carreira profissional autoral. Até então minhas composições circulavam apenas localmente. Até dezembro devo lançar um EP com sete músicas que vai mostrar outras facetas do meu trabalho que ainda não foram exploradas”, destaca Bruno. O cantor é reconhecido pela sua habilidade com harmonia vocal, sobretudo em celebrações religiosas nas Comunidades Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Santo Ezequiel Moreno, ligadas à Paróquia de Sant’Ana, na Prelazia do Marajó.

 

A música, para Diego, é um chamado à evangelização e compõe o serviço sagrado que exerce como missionário. “A arte é minha forma de expressar o que a história da minha vida escreve. A religião é a maneira que escolhi para me conectar com aquilo que é maior que eu, maior que tudo: Deus. Foram os ensinamentos do cristianismo que formaram os meus principais valores, no início. Durante a adolescência, a Igreja foi a minha principal fonte filosófica em todos os meus questionamentos sobre a humanidade, a natureza, o divino e a existência como um todo”, explica o cantor.

A religião católica ocupa o espaço da espiritualidade na vida de Bruno Diego e provê a sabedoria que necessita para evoluir como pessoa a cada dia, o suporte, o amparo e o consolo do qual necessita para superar com paciência, esperança e até mesmo gratidão os momentos difíceis.

O cantor destaca que serve à Cristo, e à Igreja, de maneira ofertada, com todos os dons que dispõe, à medida em que são necessários para o bem comum. “Por exemplo, tenho ministérios regulares como cantar nas missas dominicais e na adoração às quintas-feiras. Mas além disso, sou convidado a ministrar com música em eventos católicos, ecumênicos, beneficentes, e a palestrar sobre diferentes temas em eventos formativos como ‘música na liturgia’, ‘arte sacra’, ‘o papel do artista na Igreja’  ou formações para jovens casais, a convite da Pastoral Familiar”, destaca Bruno.

Talento e dedicação

Sobre as primeiras experiências com o canto e a musicalidade, Bruno explica: “minha prima Carla Amaral costumava cantar comigo nos intervalos das aulas na Escola Elizete Nunes quando eu tinha uns 12 anos. Em seguida, minha amiga Paula Martins, que sempre esteve comigo nessa trajetória, foi a primeira pessoa a me incentivar a cantar, e formamos, juntos, o ministério de música ‘A Força da Oração’ em janeiro de 2003”. Foi nesse ministério que iniciou sua carreira musical. “A partir de então fizemos vários shows em diferentes eventos em cidades como Portel, Bagre, Curralinho, Belém, Augusto Correia, Quatipuru, Primavera, além de Breves”, afirma.

Suas primeiras influências musicais foram a banda católica Anjos de Resgate, o padre cantor Cristiano Pinheiro e o cantor Gospel Leonardo Gonçalves. Atualmente, seus ouvidos estão direcionados à artistas como a banda Coldplay, Davidson Silva, Matt Maher, Bruno Camurati, Os Arrais e Maninho.

De família católica, ele sempre participou das missas e o canto da assembleia chamava a atenção. “Nunca pensei em ser cantor durante a infância, mas aos 14 anos percebi que realmente gostava de cantar. Daí então, por escutar música religiosa em casa, acabei percebendo que me sentia mais confortável neste estilo que me era tão familiar”, revela.

Na nova fase da carreira, a composição é o destaque. “Desde muito jovem gostei de escrever alguns pensamentos, sobretudo na adolescência, no período escolar. Brincava de fazer paródias com amigos e com minhas irmãs. Cheguei a participar de alguns concursos, como o Festival Vocacional, onde inscrevi uma canção autoral e fiquei em terceiro lugar”, recorda. Em 2008, o artista participou do DVD ao vivo do projeto “Cantando Deus”, no Theatro da Estação Gasômetro, em Belém do Pará, com a canção “Quero ser só do Senhor”.

Com suas letras, Bruno Diego participou e ganhou algumas competições, como o segundo lugar no concurso para o tema da IV Assembleia do Povo de Deus, evento da Prelazia do Marajó, com a canção Sob a Luz de Um Pentecostes. Na edição seguinte do mesmo evento,  venceu o concurso com a letra que se tornou o hino do evento, composição assinada em parceria com a Ir. Maria do Carmo, da Caridade de Santa Ana. “Nos últimos 10 anos escrevi dezenas de músicas religiosas, além de algumas composições românticas nunca lançadas oficialmente”, diz.

Música católica e Amazônia

 

“Meu estilo de composição não costuma fazer citações diretas à Bíblia Sagrada. Meus textos refletem minha experiência pessoal com a espiritualidade e com escritos teológicos de grandes Doutores da Igreja, como Santo Agostinho”, comenta o artista. Esta é também a fórmula que movimenta o cenário musical católico no Brasil, um segmento que cresce em ritmo acelerado e alcançou o mainstream com artistas como Missionário Shalom, Banda Rosa de Saron, além de músicos como Davidson Silva, Olívia Ferreira e Adriana Arydes (indicada ao Grammy em 2019) sendo contratados por grandes gravadoras, a exemplo da Som Livre e a Sony Music.

Para Bruno Diego, a música católica não-litúrgica, aquela elaborada para ambientes diferentes da santa missa, contribui com a evangelização nos mais diferentes lugares. “Porém, para que possamos realizar esse tipo de evangelização precisamos de eventos. É fato que em todos os lugares do Pará existem as tradicionais festividades de santos padroeiros. No entanto, grandes eventos dentro dessa temática ocorrem com pouca frequência, tendo destaque apenas o Círio de Nazaré com o Círio Musical, em Belém”, lamenta.

De cordo com o cantor, na prática, são os artistas locais que animam as festividades pelo Pará e já há um movimento de organização entre eles na busca por espaços para divulgar o trabalho. “Este ano reunimos vários artistas católicos paraenses num festival online beneficente, o Louva Amazônia, com representantes de todas as dioceses do estado. Eu tive a honra de representar a Prelazia do Marajó. Este festival possibilitou a partilha sobre os desafios de evangelizar através da música em nossa região, com as dificuldades de logística que temos”, conta.

Bruno destaca que muitos artistas, como ele, enfrentam horas de viagens pelos rios, com pouco ou nenhum conforto e segurança. “Isso dificulta principalmente uma agenda de shows com banda completa, pois encarece os custos para os organizadores de eventos. Mas ainda assim acreditamos num futuro onde poderemos alcançar mais pessoas com nossa missão, graças às plataformas digitais”, comemora.

A região amazônica, com suas especificidades culturais, logísticas e ambientais, também aparecem na produção musical do artista. As letras falam da vivência dele no Marajó, com destaque para as comunidades ribeirinhas que visita desde 2015. Entre textos com crítica social e reflexões sobre a fé e a tradição do povo, ele busca uma musicalidade que dialogue com a música popular brasileira, o Jazz internacional com um toque amazônico no uso de sopros e pau-de-chuva para lembrar o som das águas. O estilo tem inspiração em Nilson Chaves e outros artistas da música popular paraense.

"(...) uma voz espantosamente afinada"
- Victor Victório -